domingo, 19 de junho de 2011

Páspalo

Quando um grande mal assolou o mundo. Um antigo poder esquecido foi procurado. Com esse poder era possível derrotar o mal, mas o detentor seria tentado muitas e muitas vezes pela escuridão a ceder esse poder...

— Que triste época esses quatro bebês escolheram nascer— Diz a ama olhando as crianças se enroscando nos cordões umbilicais. As cordas sangrentas ainda tinham os ventres como suas extermidades.
— Gêmeos de Lua— Disse a outra. Ambas estavam de braços cruzados assitindo a cena sangrenta. A imperatriz havia desmaiado de dor, mas seus olhos ainda jaziam assombrosamente abertos. As crianças inquietas começavam a subir uma sobre as outras. Eram quatro crianças. Ainda não revelarei quantos meninos e meninas eram, mas digo que apenas duas não eram da rainha. Naquela cama não havia apenas a Imperatriz, uma ama também estava dando a luz ali. A empregada estava aos prantos, seus soluços aumentavam a poça de sangue entre suas pernas, mas inda não era hora das amas tocarem nos bebês e tirarem todos daquela cena lamentável. Oras, era pra o nascimento ser algo belo, afável, de amor. Mas o momento do nascimento deles era de tristeza. Uma noite de inverno. E era noite de lua cheia. As amas não estavam com
medo ou tentavam esconder a heresia de acender mais que uma vela. Ama que acabara de dar a luz esperava que a Lua a pedoasse. Todas ali esqueceram que a Lua perdoa se ela for mãe dessas crianças. E a lua era mãe deles. Cada vela acesa era para cada criança. Porém haviam mais velas que crianças. O vento vinha pela mesma janela alta que a luz da lua entrava. Elas esperavam que pelo menos uma delas chorasse. Não se pode ajudar ninguém que não peça ajuda. A primeira a chorar não seria apenas o primogênito, abençoado e favorito. Isso não é importante agora para
quatro recém-nascidos indefesos contra o frio daquele cômodo. O importante do primeiro choro, mais até que o nome mais bonito, era a limpeza numa água quente que espera ao lado de uma manta branca abençoada pelas letras do sol no festival do último verão. Mesmo que essas crianças traíssem o Sol anos depois.
As empregadas quase caíam no sono quando o choro fino as acordou. Todas olharam para a cama onde a Imperatriz enfim estava de olhos fechados, mas ainda nua como sua ama fiel. Procuravam quem estava chorando. Quem gritava na escuridão.
— Acendam as luzes!— Gritava a mais velha das amas que cuidara de três imperatrizes antes da atual esposa e agora mãe dos futuros donos do império.
— Reaqueça a água, Agrippa!— Na confusão, a não tão jovem Agrippa derruba o vaso com água no chão. Todas se lamentam. Nicolette reacende o fogo movendo o uma tora mais afastada das brasas— Fênix!— Disse ela baixinho quando o sopro não revivia o fogo. O brilho amarelado chamou a atenção de todas. Adelaidde, que estava com a manta alva nas mãos, lançou-as sem olhar quem as seguraria e esperou Nicolette se levantar. O tapa no rosto da senhora foi o bastante para ruborizar a face de ambas — Não chame seus demônios para lhe ajudar agora! Enlouqueceu?!— O choro havia parado quando o fogo pulsou, mas tornou assim que ouviu o som do bofete — Se uma dessas crianças dever algo antes mesmo de seu primeiro pecado, seremos nós as condenadas!— Os olhos arregalados de Nicolette marejaram enquanto levava a mão seu rosto vermelho.
As luzes iluminavam o rosto molhado do bebê que se acabava em prantos perto da beira da cama. As amas continuavam com seu balé e quando uma virava, as outras acompanhavam o movimento com poucos segundos de atraso. A surpresa nos olhos de todas também ia crescendo, de Agnes que segurara o manto branco à Juditte, a mais distante com o vaso de cobre cheio de perfume.
Adelaidde não conseguia acreditar passou pelas colegas e tomou o manto grosso da mão de Agnes.
— Você o chutou, Carolinna?!— Perguntou Adelaidde. Era mais uma acusação, frente a descrença da ama. Carolinna tinha um rosto lindo mesmo em meio a dor que sentia pela hemorragia. Sua palidez e o roxo dos lábios pareciam não comover a velha ama. Talvez por ter engravidado, -algo que Adelaidde jamais teria o prazer- ela tivesse um ressentimento pela jovem. A ama estava irredutível, mesmo com o choro do bebê ecoando pelo quarto. Esperava a resposta. As lágrimas de Carolinna também brilhavam com a luz das velas, pois não havia parado de chorar. Ela sabia que se dormisse, morreria. Suas sobrancelhas se torceram num gesto de amargura juntamente com o vagaroso fechar dos olhos para finalmente sinalizar um fraquíssimo "não" com a cabeça. A angustia aumentou quando ela notou que a resposta não convencera a governanta.
— Como pôde?! Tens o privilégio de dar a luz no mesmo leito, ao lado de Sua Alteza a Imperatriz Annáli e ainda pensa em roubar a glória desse momento dos futuros príncipes?! Por que fez seu filho chorar primeiro que os futuros senhores dessa nação?! Sua pécora imunda!
— Chega, Adelaidde!Tome a criança ou tomo eu!— Disse Agrippa com as mãos dentro da bacia fumegante. Adelaidde pegou o pequeno e olhando para Carolinna o levou em direção a bacia.
— Como o plebeu pode tomar banho na bacia de um imperador?— Disse Adelaidde a si mesma. Mas pela altura que dissera não era uma opinião que queria manter em segredo.
— Se quiser deixar a sorte dessas crianças pior, saia do quarto e pegue uma bacia somente para os príncipes— Provocou Juditte.
O bebê ainda chorava como se fosse seu último e não primeiro dia no mundo. A primeira vestimenta dele fora um manto real.
— Não há profecias para uma noite de inverno com lua cheia...— Nicolette comentou
ainda com uma das faces avermelhadas. Quando o bebê foi posto no colo de Agrippa, ele cessou sua "melodia". Agrippa sorria para o pequeno. Como se soubesse que ele fosse vencer as desgraças que ser um filho da lua acarretaria.
— Torça pra que um príncipe chore agora, Adelaidde. Ou terá que cuidar do filho do ferreiro até ficar entrevada numa cadeira como eu— Adelaidde já não respondia às provocações. Sabia que tinha mais tempo como serva que Juditte, mesmo sendo mais nova. O próximo bebê a chorar seria dos cuidados de Adelaidde, e o terceiro de Juditte que como não podia sair de sua cadeira, seria cuidado por Nicolette também o quarto estaria aos cuidados de Agnes. Caso esse último seja um príncipe, Carolinna cuidará dele também. Os príncipes sempre tem duas amas, mas Adelaidde escolheria Agnes para cuidar do "príncipe dela", mesmo Nicolette era mais cotada ao cargo de segunda ama que Carolinna. Ela não queria Carolinna de forma alguma...
— E qual o nome dessa criança?— Perguntou. Agnes ficou ao lado de Carolinna ao notar que o esforço da jovem era para dizer algo. Agnes aproximou o ouvido. O sussurro fraco de uma voz etérea chegava aos ouvidos da ama. Agnes foi até a ama que segurava a criança— Beleno— Disse baixo para que Adelaidde não ouvisse, mas ela ouviu.
— Quando a imperatriz vai acordar? — Disse Nicolette coçando sua verruga de estimação no ombro direito. Era desagradável ver aquela cena, mas todas disfarçavam e viravam o rosto — Imagine essas crianças sem nome quando o imperador vier levá-las? — Sempre ficamos em situações difíceis, mas as imperatrizes são sempre as que mais sofrem.
Tudo era silêncio até o som metálico de muitas armaduras começarem a se
aproximar da porta.
— Meu santos! São eles! — Exclamou Agnes.
— Só uma criança chorou e nenhuma delas é filha do rei! — Lembrou Agrippa com Beleno dormindo em seu colo.
— Elas parecem mortas. Devem estar com frio! — Comentou Nicolette —Vamos pegar todas e lavá-las e envolvê-las! Falam de meus costumes, mas isso é crueldade de mais com os fetos! — Suplicou.
— Acreditas que esse barulho todo seja os cavalheiros que te visitam em
sonho, Nicolette? — Adelaidde ironizou.
— Ande, Adelaidde! Pare de sarcasmo! Pegue as crianças e tragas todas juntas na mesma bacia! Elas não tem nem mesmo nome! Pra que se preocupar com hierarquia agora! — Juditte estava a espera de outro bebê para lavar. Agrippa segurava o único chorão da noite para ela. Nicolette e Agnes puxaram outros mantos e começaram tirar as crianças da cama vermelha e fria. Agnes levou o primeiro bebê. Era uma menina e da imperatriz. Nicolette olhava o menino da imperatriz e obesrvou enquanto Juditte jogava primeira concha de água quente na menina que enfim chorou. Ela abaixou perto do ouvido de Annáli e sussurrou "Morpheus". Os olhos da imperatriz
se arregalaram e ela se ergueu como que de um pesadelo, puxou o ar como se tivesse sido resgatada do mais profundo oceano. O Imperador abriu a porta e com ele todo o frio que poderia entrar na alcova e sua comitiva de guerra.
PANTALEON! LUBOMIR! — Gritou a imperatriz. Seus cabelos desgrenhados longos e negros voaram da frente do rosto com o vento.
— Feche a porta! — Gritou o Imperador adentrando o quarto. As quatro crianças se puseram a chorar.
— Por que ela deu a luz no quarto da ama?! — A voz do imperador depois das batalhas sempre era em tom crescente. Todas temiam por suas vidas, mas explicar o que ocorreu antes das duas placentas estourarem era muito longo para aquele momento.
— Tenha calma, Alteza — Um dos gurreiros da comitiva ponderou — Eles acabaram de nascer é uma noite de Lua Cheia e o céu está limpo. É alto inverno, lembra-se?
O guerreiro conseguiu trazer calma ao sangue de Sua Alteza. Não nevava em Páspalo.
O frio parecia ser da luz da Lua cheia gigantesca nos meses de inverno. A lua era a única coisa que o imperador parecia temer. Seu poder sobre o céu noturno era supremo, diferente do generoso sol que emprestava suas forças aos agricultores, animais, etc. a Lua não dava nada. Queria a noite, o calor das fogueiras, vidas inocentes com suas bestas negras só para si. Agora era a vez de seus filhos. O imperador nascera numa tarde primaveril e muitos desacreditavam que ele teria um pulso firme no reino. Pois todos agora se curvam a sua mão de ferro imponente que Fizera de Páspalo a capital do império. As crianças estavam lavadas e calmas nos colos de suas amas. Já era hora de tirar todos dali, exceto a pobre criada que ficaria imunda e seu próprio sangue, mas teria honra eterna de dividir o milagre da maternidade com a imperatriz. Como se isso a livrasse das penas que se abateriam sobre ela futuramente.
O imperador saiu do quarto com Annáli nos braços. As amas ainda amargando um grande castigo no rosto, seguiram sua Alteza desesperadas com as crianças que pareciam não se importar com o frio do corredor longo. A comitiva deixou todo o quarto em silêncio e a porta aberta. Um guerreiro ficou para trás, ajoelhado frente à cadeira onde a velha ama que não podia andar ficara.
— Mãe, ordenarei que venham buscar a senhora — Disse o homem. Era mais velho que o imperador e tinha os longos cabelos acariciados pela mulher.
— Me esqueça. Olhe o estado que a imperatriz, o imperador e sua comitiva deixaram esse lugar...
Não só o vento, como a entrada da imperatriz naquele quarto 5 horas antes deixaram marcas visíveis de uma discussão e do momento do parto. Junto com suas amas que também saíram sem olhar para trás, elas vasculharam o quarto a procura de algo.
— Mãe, o que houve aqui? — Perguntou o guerreiro confuso.
— Somente um parto, querido. O que virá a partir de hoje é que deve ficar gravado em sua mente.
Carolinna olhava para o seu segundo filho, sem nome e com a mesma sorte da mãe...
— Não quero te dar um nome... — Pensou.
— Um nome põe você a sombra de alguém e você é quem faz a sombra na luz da lua...
***

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